Redação Criativa

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Quinta-feira, 9. Junho 2010
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Marcelo Rubens Paiva

 

 

 

Escrevo para que me respondam    


    Sempre perguntam a um escritor: "Por que você escreve?". Por que sempre aos escritores perguntam isso? Perguntem a um dentista por que ele obtura. Ou a um pipoqueiro por que ele vende pipocas e não diamantes.
    Já sei o que um piloto de avião diria. "Meu sonho, desde criança, era voar", ele diria. Um comissário de bordo tinha esse sonho, mas descobriu, tarde, que não passa de um garçom, equilibrista de luxo e turbulências.
    Perguntei a ginecologistas por que escolheram a especialidade. Suas respostas nunca me satisfizeram, e nem seus sorrisos eram marotos. E, a um advogado cível, sempre pergunto por que não criminal. Não responde. E, se eu insistir, ameaça me protestar.
    Está bem. Também já me perguntei por que escrevo. Ser dono de um banco traria mais conforto. Herdar um seria mais cômodo. Roubar um é arriscado, mas tem seus ganhos.
    Dentista eu não seria. Menos ainda ginecologista. Vender pipocas não traz o conforto de quem possui um banco. Pilotar aviões, são muitos os botões.
    Não sei advogar nem engenheirar. Endinheirar-se é para os estressados. Médicos, dizem, curam estresse. E existe profissão mais estressante que médico? Existe. Cobrador, me disseram. Em especial onde a tarifa de ônibus é R$ 0,77. Por que fazem isso com os cobradores? Catar moedas, ouvir reclamações quando falta troco e, nas curvas fechadas, se segurar com os centavos.
    A profissão mais idiota do mundo é a do motorista de elevador, o ascensorista. Faz algo que todos sabem fazer, colocar um elevador em movimento. Passa o dia sentado numa caixa fechada. Escuta conversas incompletas e piadas sem finais. E tem seus rins e fígados sempre em movimento. Um ioiô humano.
    A existência de ascensoristas só não é mais estranha que a da gravata. Ou alguém, em sã consciência, entende por que laçamos tiras de panos estampados ao redor do próprio pescoço?
    Existem hábitos inexplicáveis, como enfiar na  boca um tubo com algodão na ponta, colocar fogo na outra ponta, chupar uma fumaça, inalar e soltar. Chamam isso de fumar. Dizem que mata. Faço isso há tantos anos...
    Coisas estranhas. Por que temos cachorros e gatos e não vacas domesticadas que nos fartem de leite? Por que o zero está no final do teclado, e não no começo? Por que mordemos canetas e mascamos chicletes? Talvez por isso eu escreva, para que me respondam. Para quê?



rubenspaivaMarcelo Rubens Paiva nasceu em 1959, em São Paulo. Escritor, dramaturgo e jornalista, estudou na Escola de Comunicações e Artes da USP, freqüentou o mestrado de Teoria Literária da Unicamp e o King Fellow Program da Universidade de Stanford, na Califórnia. Publicou cinco romances: Feliz ano velho (1982, Prêmio Jabuti), Blecaute (1986), Uabrari (1990), Bala na agulha (1992) e Não és tu, Brasil (1996). Publicou também o livro de crônicas As Fêmeas (1994). Foi traduzido para o inglês, espanhol, francês, italiano, alemão e tcheco. Como dramaturgo, escreveu: 525 linhas (1989); O predador entra na sala (1997); Da boca pra fora – e aí, comeu? (1999, Prêmo Shell); Mais-que-imperfeito (2000); Closet Show (2001); e No retrovisor (2002). A crônica transcrita aqui foi publicada no Jornal "Folha de São Paulo".
 

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