Ainda existem um sem número de palavras que, por não terem sido impressas, não possuírem página e nem capa grossa, não estão em estantes, nem podem ser empilhadas, muito menos consultadas ou emprestadas com data de devolução. E elas existem e estão por aí tão fortes quanto aquelas que já receberam seus registros, porque estão salvaguardadas na memória do povo.
As histórias, em meio a tantas outras manifestações populares, são uma pequena parcela deste patrimônio, talvez, circunstancialmente, a mais expressiva, por ter sido fonte nascedoura e inspiradora da nossa cultura formal. E quanto mais não sabemos das suas origens ou conseguimos datá-las, mais são vigorosas e estejam certos de que chegarão, sem nenhuma traça e rasura, às gerações futuras.
A contação de histórias remonta às origens da sociedade como uma das primeiras manifestações culturais do homem. Antes da linguagem escrita, foi ela a responsável pela preservação e transmissão dos nossos conhecimentos e das nossas desconfianças, ao mesmo tempo que veiculava toda uma forma de percepção de um mundo, onde o elemento maravilhoso tinha o seu lugar no imaginário comum.
“Nas sociedades africanas que ainda não têm uma escrita sistematizada, a tradição oral cumpre um papel semelhante ao das bibliotecas e arquivos de outras sociedades. Os velhos são sábios das comunidades, donos de memória prodigiosa, verdadeiras enciclopédias vivas, encarregadas de perpetuarem a tradição e a história de seus povos. Muitas vezes, em caso de guerra, esses ‘Griots’ - como são também chamados os contadores de histórias - são poupados de morrer, para que continuem narrando as proezas dos povos africanos.”
Correspondendo à faculdade básica humana de trocar experiências, a narração oral pôde encontrar maior ou menor espaço ao longo dos séculos na história humana.
O antigo costume - até então espontâneo - de contar histórias foi perdendo seu vigor no decorrer da Era Industrial e, mais recentemente, da Era Informatizada. A partir do final do século passado, surge a preocupação de resgatar essa arte milenar, reconduzindo textos escritos - populares ou propriamente literários - ao universo da narração oral. Nasce, assim, a figura profissional e contemporânea do Contador de Histórias, que procura trazer aos contos a naturalidade própria da narração oral. A palavra falada, no conto em voz alta, faz-se mágica e convida os ouvintes a entrarem na viagem da imaginação e a se comunicarem com seus próprios sonhos.
O narrador, esse incansável “entregador de imagens”, dispõe de instrumentos simples, porém inesgotáveis: a voz, o olhar e os gestos. E é justamente nesta economia de recursos que reside a força da oralidade.
Diferente do conto lido, o conto contado precisa da participação decisiva do elemento vivo - o contador em uma particular inter-relação com o seu ouvinte. Alguém que, naquele momento, empresta-se em voz, com todas as suas nuances de entonação - timbre e ritmo; em um olhar janelando a alma; movimentos com gestos que sustentam a palavra – para simplesmente roteirizar a imaginação de quem o está escutando. Nesta interlocução é que surge, em meio à cena, sendo o público o seu contraponto, uma história fresquinha, acabada de ser parida por uma mãe de muitos filhos e nenhum igual ao outro - porque essa história poderá até ser recontada, mas será uma outra, porque o contador já se transformou. Junto com ele, a platéia também já não é não será mais a mesma; aquele instante já foi, dando lugar a um outro tempo. Então, as histórias da tradição oral sofrem estas mudanças e apropriações todo o tempo; é exclusivamente isto que as tornam legitimamente vivas e verdadeiras.
Nesta especificidade, no trato dos contos populares, as bibliotecas, lugares do saber culto e contido, por sua vez, privilegiam a palavra terceira e revisada (estaria à beira se eu aqui desmerecesse ou relevasse a importância destas - longe disto), restando a estas outras a preservação, ao acaso, pela memória e o gosto popular.
E ainda temos, também, de nos lembrar das cantigas de roda, brincadeiras, acalantos, provérbios, frases-feitas e bem-dizeres, adivinhações, orações, danças folclóricas, enfim, todas as manifestações que têm como característica comum a persistência pela oralidade. “A fé é pelo ouvir”, ensina São Paulo.
Saber garimpar este ouro é tão importante quanto o escutar, o registrar, o catalogar, o guardar e o expor.
Pelo mesmo lado, contar bem uma história exige o conhecimento de algumas matérias. Simples, se partimos do ponto de que o essencial é a disposição: estarmos desejosos de contar e termos alguém querendo nos ouvir. E assim o era, sempre foi, desde os tempos das cavernas: uma fogueira, uma roda e alguém acocorado em voz alta e de olhos arregalados anunciando as aventuras e os perigos daquela vida. A paisagem, aquele homem, as histórias, agora são outras, mas a forma e o jeito de contá-las pouco mudou.
Mas também já não estamos à beirada da cama de nossas crianças, apresentando-as às maravilhosas fantasias que certamente farão parte dos seus sonhos do porvir, nem sob as sombras tremelicantes nas paredes criadas através do fogo do fogão de lenha ou das lamparinas de cheiro e fumaça do azeite de mamona. E veio a luz, a energia elétrica. Naquele quarto, fazendo as crianças dormirem, tem a televisão. Naquela cozinha, esquentando sozinho o regalo da noite, tem o forno de micro-ondas. Fomos despejados deste convívio intimo e estamos agora nas salas de aula, nos pátios das escolas, nos auditórios dos colégios, nos palcos dos teatros, nas praças das cidades e em tantos outros lugares, muito maiores, mais coloridos e iluminados. A história transformou-se num espetáculo e o contador num ator que magistralmente interage com o público que o assiste. Nesta complexidade, ter o que contar e saber como contar é a garantia de mantermos preservada essa nossa arte milenar.
Há mais de quinze anos dedico-me a esta arte do maravilhoso e do encantado. Caminho que começou inspirado nas minhas lembranças da infância na roça, quando, à noite, na escuridão iluminada de estrelas, ouvíamos as histórias dos bichos falantes e outros seres que moravam na mata ao lado da nossa casa. E que bicharada! Tinha onça e bode construindo uma casa juntos, sacis nas touceiras de bambu, a tartaruga apostando corrida com o coelho, o curupira confundindo quem queria judiar das plantas e dos bichos, um menino lobo, um cachorrinho que seguia quem passava na estrada, os escravos que arrastavam correntes ao redor da casa. E ficávamos ali, arrepiando e olhando arregalados as sombras, os ruídos, o crepitar dos galhos secos, os uivos dos lobos, que seguiam como trilha sonora das histórias que estavam sendo contadas. Mais tarde, na cidade grande e iluminada, fui trabalhar com crianças, querendo agradá-las, fui remexer com minhas lembranças, buscar o que eu mais gostava de fazer quando tinha a idade delas. E não deu outra: era escutar histórias. Resgatei com elas as vozes da minha infância. Elas também gostavam, arrepiavam e arregalavam. Motivado pelos professores, fui contar essas histórias nos pátios de outras escolas. Mas meu repertório logo se esgotou. Então passei a remexer com as lembranças das outras pessoas. Viajei para o interior das cidades para escutar e guardar. As pessoas foram-me entregando suas mais preciosas memórias, ricos tesouros, confiaram-me a guarda de suas lembranças.
Por que Contar e Ouvir Histórias?
“Todos sabiam contar estórias. Contavam à noite, devagar, com gestos de evocação e lindos desenhos mímicos com as mãos. Com as mãos amarradas, não há criatura vivente para contar uma estória (...). variações de timbre, empostamento, nasalações, saltos de quinta e oitava, dando visões de vôo, pompa, ferocidade, alegria (...). Ia eu ouvindo e aprendendo. Era o primeiro leite alimentar da minha literatura. Cantei, dancei, vivi como todos os outros meninos sertanejos do meu tempo, sem saber da existência de outro canto, outra dança, outra vida.”
Por que Ouvir?
Tente escutar outras coisas: o ranger do tempo, o estalado da distância ou o estampido do silêncio. Em revista, sendo assim, também poderia: “Deus escuta certo por palavras tortas”. E, aí, a gente vai escutando o que quer e o que não quer, o que entra por um ouvido e sai pelo outro. Quem escuta o rabo encurta ou seus males espanta? Então, Elvira escuta! E a gente escuta tanta coisa, não é?
Principiando, como na antiga história da galinha e do ovo, quem chegou primeiro, foi o que escutou ou o que contou? Certo é que, primitivamente, a transmissão de idéias, vontades e necessidades, através da fala, mediante sons formados na laringe e cavidades da face, desenvolveu-se graças à existência da audição, ou seja, da capacidade de perceber esses estímulos sonoros e em virtude, também, de se poder construir com eles um sistema simbólico. É desta forma que os bebês são iniciados no mundo do nome das coisas. Então, primeiro é preciso escutar, e escutar muito bem escutado para, depois de organizar, começar a contar.
Uma outra característica primária é que no pavilhão auricular há músculos, que devem ter sido muito mais desenvolvidos no homem de outrora. Esses músculos, como os existentes hoje em felinos e eqüinos, podiam deslocar o pavilhão para posições que facilitavam a recepção de sons e a localização de suas fontes. Escutar passava a ser necessário à sobrevivência. Nascia o ouvido caçador e perdigueiro, fundamental no processo da seleção natural. Assim, era mais forte quem mais alto e mais longe escutava e, ainda, quem conseguia distinguir se aquilo que urrava era para comer ou era para correr.
Outro dado é que, ainda hoje, alguns animais (o morcego, por exemplo) usam a audição como nós usamos a visão. Ondas de som, em vez de luz, são captadas e permitem a localização e a identificação de objetos no espaço. Assim, estes animais enxergam com os ouvidos e facilmente se locomovem no escuro. O ouvido assume a direção.
Como os músculos foram se atrofiando, o homem moderno, com as conseqüências das facilidades tecnológicas, veio perdendo parte das capacidades do uso de seus ouvidos. Exemplo disso, há pouco mais de quarenta anos escutávamos o rádio interagindo com o nosso imaginário (quem já não ouviu falar do episódio radiofônico The War of the Worlds – A Guerra dos Mundos – de Orson Welles, transmitido em 1938, com tanto naturalismo que os ouvintes acreditaram ter estourado uma verdadeira guerra mundial e interplanetária, causando pânico terrível em grande parte dos EUA?). Hoje, a televisão nos economiza essa participação, quando nos fornece tudo pronto. O som vem com a imagem, tudo instantâneo e em cores.
Ouvir histórias é resgatar um pouco deste processo, porque escutar histórias é cheirar, ver, tatear, comer, rir e chorar, tudo com os ouvidos. É deixar que eles assumam os comandos, que nos guiem, nos levem de volta ou nos impulsionem à frente. E aí a nossa alma atende quando os olhos ficam aprisionados no nada, atados, não conseguem nem piscar. Assim, através dos sons das palavras, melodiosos e rítmicos, somos conduzidos pelas histórias, ouvindo com os olhos e vendo com os ouvidos. É um outro sentido, parecido com aquele, quando, estando ao telefone, desligamo-nos do ouvido real para escutarmos com o corpo todo. Pensando desta forma, poderíamos, inclusive, contar histórias para surdos. Eles escutariam com os ouvidos dos puros.
Através deste ouvido, feito de mais coisas além das cartilagens e tímpanos, vemos o belo que é único, pessoal e intransferível, disponível a partir dos materiais com que construímos o mundo. O que fica impresso no corpo é o alimento da memória. O tempo até passa, mas escutamos, mesmo à distância, o estalado claro das coisas tinindo de novas. Parece que foi ontem, escutei isto. Portanto, há uma despretensiosa e particular interação, quando estamos escutando uma história. É a “estrada afora ... bem sozinha” de que tenho notícia – um dia passei por ela. É a casa feita só dos doces de que gosto. Este meu ouvido encarrega-se da cor, do cheiro, da textura e do imaginar.
E o tempo, bom como para o vinho velho, vai-nos apurando, enchendo-nos de novas vivências. Antes de ser um contador de histórias, é preciso ser um bom “escutador”, e os bons escutadores fazem-se só com o tempo. O tempo traz a cor, o contraste e a definição das coisas. Bem diz Caetano Veloso: “o melhor o tempo esconde...”. Enfim, para ser um bom contador de histórias, precisamos somente de duas coisas: escutar com tempo, ou, simplesmente, dar mais ouvidos a ele.
Pessoalmente, saber disto me inquieta, porque fico tonto só de pensar que ainda há tantas coisas para serem buscadas. Mas me renovo e remoço, quando ouço os sons dos momentos que já se passaram ou das vozes dos que já se calaram, como, por exemplo, a voz grave e eloqüente de meu pai, sempre severa e mansa. Aquela voz foi a primeira contando-me histórias, fazendo-me tremer e também sorrir. E como me confortava!
Por que Contar?
Desde que o homem inventou os símbolos e os significados para as coisas com o interesse de desvendar os mistérios que o rodeavam, utilizou-se de dois signos importantes: a Razão e a Imaginação. Nesta ordem, a Razão dava-lhe os fatos, classificando e comparando, deduzia deles as leis determinantes para a sua vida. Mas existiam coisas que perturbavam a lógica, não possuíam medidas, muito menos formas e ainda nevoam os sentidos, eram sem explicação. Vinha, nestes momentos de angústia, em seu auxilio, para afagar-lhe, a Imaginação.
“A Imaginação voa com as asas de chamas, que rasgam, na noite, caminhos de luz, iluminando assim o Invisível e apontando a Verdade futura, isto é a Verdade entrevista, da qual é preciso procurar a demonstração.”
Onqueuvim? Onqueutô? Onqueuvô? A inquietação de saber que existem muito mais coisas entre o céu e a terra que a nossa vã filosofia poderia explicar fez a criatividade do pensamento humano erguer aos seus olhos lentes para ver o invisível. E estas lentes não só ampliaram sua capacidade de ver como, também, transformadas em potentes binóculos, aproximaram-no de campos mais longínquos. Através delas o homem pôde transpor seus primeiros limites, fazer novas descobertas, avançar, enfim, alargar em infinito suas fronteiras, tanto externa quanto internamente. Não fosse a capacidade de pensar, raciocinando e imaginando, certamente não teríamos sobrevivido, estaríamos ainda estacionados no “há muitos e muitos anos atrás”.
E assim, misturando um punhadinho de Razão com um tanto de Imaginação, o homem pôde reproduzir os seus feitos, suas lutas, conquistas e derrotas, anunciando ao novo mundo a sua existência. Contar suas histórias, com bravura ou ironia, era a maneira de trocar suas experiências. Se hoje conhecemos a trajetória de nossos antepassados, é porque suas histórias foram sendo recontadas, repassadas pelas gerações através de um forte fio da nossa memória ancestral.
Se existo, por que penso? Sobrevivo porque conto. A nossa insistência, às vezes até insana, em viver, só é reconfortada pela esperança. Este sentimento que nos foi apresentado ainda crianças, lá quando o bem sempre vencia o mal, onde também havia o exemplo heróico de um salvador e o final feliz, com festa, casamento e viveram felizes para sempre. Ainda lembram? Pode parecer agora coisa de criança. Mas, saber que as histórias tinham finais felizes, quanto nos acalentava a alma e ajudava-nos a elaborar perdas! Dando-nos um outro sentido para a tristeza, porque dias melhores viriam e, passada a tempestade, sempre viria a bonança.
Assim o foi e assim sempre será. É de uma importância sem tamanho contar histórias para as nossas crianças. Primeiro, através da oralidade que apresentamos o mundo formal à criança, é gostando do que ouve que, depois, já independente, elas buscarão sozinhas seus caminhos pela leitura. Então, contar histórias é um incentivo à leitura. Segundo, podemos trabalhar qualquer conceito através de uma história, do mais concreto ao mais abstrato. As histórias, por mais ingênuas que pareçam, sempre querem dizer algo. Elas não se resumem, são como pedras atiradas sobre a superfície espelhada de um lago: as inúmeras ondas que se propagam até as margens são as suas conseqüências.
E entrou por ouvido e saiu pelo outro, quem quiser que escute e conte mais oito.
Luiz da Câmara Cascudo - Trecho extraído da Introdução do livro Literatura Oral no Brasil - 1949.